Lugares no tempo · Cadaval

Real Fábrica do Gelo

Guardião de pequenos tesouros, o concelho do Cadaval reúne um trio de lugares que, juntos, formam um roteiro pronto a explorar. O itinerário começa na Real Fábrica do Gelo, edificada em 1741 na Serra de Montejunto, onde o "fabrico" de gelo decorria entre os últimos dias de setembro e finais de fevereiro. A água era captada na casa da nora, contígua ao tanque principal, com capacidade para cento e cinquenta mil litros; atingido o limite, distribuía-se por gravidade por quarenta e quatro reservatórios rasos que, com as baixas temperaturas, favoreciam a passagem do estado líquido ao sólido. Formado o gelo, o guarda descia antes do nascer do sol à vizinha aldeia de Pragança — uma das mais altas do país — e o sopro de uma corneta bastava para acordar os neveiros, que subiam a pé a serra para partir o gelo, transportá-lo em cestos e armazená-lo no silo até ao verão.

No início da estação quente, o gelo era partido em blocos, envolvido em palha e serapilheira e levado pela noite dentro no dorso dos machos até ao sopé da serra, de onde seguia em carroças rumo ao Vale do Carregado e, depois, em barcaças pelo Tejo até à Casa do Gelo — atual Café Restaurante Martinho da Arcada, no Terreiro do Paço. Durante mais de cento e vinte anos, a fábrica refrescou o palato da corte, das famílias abastadas e dos cafés requintados de Lisboa, até encerrar em finais do século XIX, com a chegada do frigorífico. No topo da Serra de Montejunto fica ainda a Capela de Nossa Senhora das Neves, local de romarias desde a Idade Média, com construção anterior ao século XIII e traça original digna de contemplação.

Real Fábrica do Gelo — Cadaval
Real Fábrica do Gelo — Cadaval
Real Fábrica do Gelo — Cadaval