Castas extraordinárias · do livro oficial

As Castas

Sete castas notáveis — três brancas e quatro tintas — que dão alma aos vinhos da Região de Lisboa, da viticultura à prova.

A riqueza e a reputação da Região Demarcada dos Vinhos de Lisboa residem na diversidade dos seus vinhos — uma diversidade conferida pela variedade dos solos, pelo relevo ondulado das suas mil encostas e exposições solares, pela proximidade do Atlântico e das suas brisas salgadas e pela influência das serras, que marcam todo o microclima envolvente. É este conjunto de forças que faz com que cada casta se manifeste de forma diferente, e é deste ponto de partida que o enólogo António Ventura apresenta as castas mais representativas deste vasto território vitivinícola.

Na trilogia das brancas constam a Arinto, considerada a soberana das castas brancas da Região e capaz de produzir vinhos e espumantes de elevada qualidade reveladores do terroir; a Fernão Pires, presente em quase todas as vinhas e beneficiada por condições de produção e maturação ótimas para a sua expressão; e a Vital, casta caprichosa que tem despertado de novo o interesse de muitos produtores. No grupo das tintas destacam-se a Castelão, que, trabalhada com rigor na vinha, se revela um caso sério na Região; a Ramisco, plantada em pé franco nas areias de Colares, sobrevivente da filoxera e origem de vinhos raros e únicos no mundo; a Tinta Miúda, rara mas de longa história e enorme capacidade de surpreender; e a Touriga Nacional, comummente associada aos vinhos premium da Região, seja como monovarietal, seja em lote.

A Região Demarcada dos Vinhos de Lisboa é um verdadeiro campo de experimentação, firmado na produção de vinhos elaborados a partir das suas castas autóctones e da conjugação destas com as grandes variedades internacionais, dando origem aos famosos "Lisboa blends". Este grupo de castas autóctones que aqui se escolheu mais não é do que uma montra e um convite à descoberta de um dos mais fascinantes territórios vinhateiros, que tem na diversidade a sua imagem de marca.

Texto: António Ventura · Introdução: Francisco Toscano Rico · Ilustrações: Alfredo Roque Gameiro e Serrão de Faria (Instituto da Vinha e do Vinho)

A escolha dos produtores

Castas eleitas pelos produtores

Percentagem de produtores dos Vinhos de Lisboa que escolheu cada casta para os seus lotes — o retrato vivo das castas que se seguem.

Castas brancas eleitas pelos produtores dos Vinhos de Lisboa (% de produtores)
Castas brancas
Castas tintas eleitas pelos produtores dos Vinhos de Lisboa (% de produtores)
Castas tintas
As brancas
Casta Branca · 75% dos Produtores

Arinto

É na Região Demarcada dos Vinhos de Lisboa que se encontra a maior variabilidade genética da casta Arinto, o que indicia ser aqui o seu solar de origem, provavelmente na Região Demarcada de Bucelas. Considerada por muitos a rainha das castas brancas de Lisboa, dá origem a vinhos e espumantes de grande qualidade que exprimem muito bem o terroir de onde vêm.

É uma casta vigorosa, mas de produção baixa: dá poucos cachos grandes por cepa e de bago miúdo, melhorando com poda longa. Adapta-se facilmente a todos os terrenos, embora seja exigente face à humidade; como revela alguma sensibilidade à podridão, uma vindima mais tardia pode agudizar este problema. Nas encostas arejadas e com boa exposição solar, a Arinto atinge facilmente um teor alcoólico superior a doze graus e uma excelente acidez — e é justamente neste equilíbrio entre álcool, acidez e aromas intensamente frutados, onde se destacam os frutos citrinos e outros frutos de caroço, que reside a razão de os seus vinhos serem tão apreciados.

Na prova, os vinhos feitos a partir de Arinto são muito frescos e apresentam uma acidez natural elevada, com aromas delicados que evoluem para os frutos secos e as especiarias. É das castas brancas portuguesas com matriz enológica mais apreciada e revela um grande potencial de envelhecimento em garrafa, denotando características de evolução requintadas, muitas vezes por mais de uma década.

HarmonizaçãoMariscos · Peixes grelhados · Saladas · Massas · Comida asiática
PerfilA rainha das brancas, com acidez natural elevada e guarda superior a uma década.
Aromas
minerallimalimãomaçãvegetal
Aquarela botânica da casta Arinto
Casta Branca · A mais dispersa de Lisboa

Fernão Pires

Já conhecida no século XVIII, a Fernão Pires está presente nas principais regiões vitivinícolas portuguesas. Em tempos também designada por "Gaeiro" — talvez por estar muito disseminada na localidade das Gaeiras, no concelho de Óbidos —, é a casta branca mais dispersa da Região Demarcada dos Vinhos de Lisboa, graças a um terroir de verões amenos e proximidade do mar que lhe propicia condições de produção e maturação ótimas para exprimir a sua qualidade.

Tem elevada sensibilidade à seca e alguma suscetibilidade ao oídio, sobretudo a ataques tardios da doença e a pragas que afetam as videiras. É precoce na maturação e mostra uma produtividade muito dependente do clone e do solo, podendo atingir produções muito elevadas em condições ótimas na vinha. Quando a produção é bem controlada, origina vinhos de grande classe, com aromas finos de frutos cítricos e maçãs verdes.

Pode inclusivamente produzir vinhos aptos para a fermentação e o estágio em barrica, desde que seja vindimada com alguma acidez — isto é, antes de entrar em sobrematuração; nesses casos, encontram-se excelentes vinhos com alguma idade e evolução muito positiva em garrafa. Toda esta enorme plasticidade torna a Fernão Pires uma das mais interessantes variedades brancas autóctones, permitindo obter uma panóplia de diferentes estilos de vinhos.

HarmonizaçãoPeixes · Mariscos · Aves · Pratos asiáticos
PerfilA mais dispersa de Lisboa · Precoce · Grande plasticidade.
Aromas
cítricosmaçã verdeflores brancasmel
Aquarela botânica da casta Fernão Pires
Casta Branca · 70% do Encepamento Nacional

Vital

A Região Demarcada dos Vinhos de Lisboa possui cerca de setenta por cento do encepamento nacional desta casta branca e, apesar do declínio registado nas últimas décadas, tem conquistado muitos produtores neste seu terroir de origem.

A forte tendência para ficar precocemente uva-passa em solos com stresse hídrico e a sensibilidade à podridão em solos férteis tornam a Vital uma casta "caprichosa" e difícil de trabalhar na vinha. Em contrapartida, tem boa aptidão para resistir ao vento — característica importante nos climas de influência marítima, onde a nortada se faz sentir, como acontece frequentemente nesta região. Com uma boa desfolha antes do fecho dos cachos, e desde que haja controlo da produção através da poda ou da monda, pode produzir vinhos notáveis.

A sua sensibilidade aos processos oxidativos obriga a uma vinificação extremamente cuidada, evitando a introdução de oxigénio no processo e optando-se pela vinificação "em redução" (ausência de oxigénio). Quando tal acontece, apresenta um enorme potencial para a fermentação parcial ou total em madeira, originando vinhos de grande complexidade e com capacidade para evoluírem em garrafa durante muitos anos.

HarmonizaçãoMariscos · Peixes · Saladas · Massas
PerfilResistente ao vento atlântico · 70% do encepamento nacional · Capaz de vinhos complexos de longa guarda.
Aromas
pêravegetallimãomaçã
Aquarela botânica da casta Vital
As tintas
Casta Tinta · 40% dos Produtores

Castelão

Casta de grande tradição histórica, a Castelão tem a sua origem no sul do país, mas continua a ser uma das principais na Região Demarcada dos Vinhos de Lisboa, embora já não possua a expressão que teve até ao final do século XX. Na vinha, o abrolhamento e a floração são precoces, e tem pintor e época de colheita médias. Gosta de clima temperado e mostra-se sensível ao desavinho e ao oídio em clima marítimo, devendo evitar-se o excesso de produção com o uso de porta-enxertos muito vigorosos.

A qualidade dos vinhos feitos a partir de Castelão é muito variável, conforme o clima e o solo. Em condições adequadas é, de facto, uma das grandes castas tintas portuguesas: tem um excelente poder de adaptação a condições ambientais muito diferenciadas e revela-se muito versátil. Para uma boa qualidade enológica e para expressar todo o seu potencial, são precisos solos profundos, como o podzol comum em Pegões, na Península de Setúbal, solos de areia pliocénica, como os da charneca do Tejo, e solos argilocalcários, típicos da Região de Lisboa.

Os vinhos apresentam, normalmente, uma linda tonalidade granada intensa e notas aromáticas de frutos vermelhos (groselha e mirtilos) e de bagas silvestres. Com a evolução proporcionada pela idade, surgem notas de compota, por vezes algumas nuances balsâmicas a lembrar eucalipto e, em alguns casos, um caráter de caça.

HarmonizaçãoAssados de porco · Quiches · Queijos · Bacalhau
PerfilGranada intenso · Frutos vermelhos · Muito versátil.
Aromas
groselhaameixapassafrutos silvestres
Aquarela botânica da casta Castelão
Raridade Mundial · Colares · <10 ha

Ramisco

Encontra-se limitada, quase exclusivamente, às areias da Denominação de Origem de Colares, restando menos de dez hectares em produção. Fruto da pressão urbanística, é hoje uma das castas mais raras de Portugal; fora do seu solar de origem, alguns produtores de Lisboa estão a testar a sua adaptação a novos locais.

Possui abrolhamento e floração tardios, bem como pintor e maturação morosos. Gosta de solos férteis e profundos, debaixo de uma cobertura de areia, quando plantada em pé franco — diretamente no solo, sem recurso a porta-enxerto — com o tradicional sistema de condução "deitado na areia". Aprecia o clima marítimo, resiste muito bem ao desavinho e mantém boas condições de resistência após a maturação. Os vinhos de baixa graduação alcoólica e acidez elevada possuem um potencial enorme para a produção de vinhos nobres e estágios prolongados, que ajudam a arredondar os taninos bem presentes enquanto jovens.

Com a idade e o estágio, transformam-se em vinhos elegantíssimos, de cor rubi com reflexos acastanhados, aromáticos, de onde sobressaem notas de carne fresca, cogumelos, por vezes terra molhada, resina e madeira de cedro. A sua personalidade ímpar torna-o um dos mais originais e carismáticos vinhos portugueses (Loureiro, 2002).

HarmonizaçãoAssados · Carnes de caça · Cogumelos
PerfilPé-franco nas areias de Colares · Menos de 10 ha · Património vivo.
Aromas
ginjaresina de cedromar
Aquarela botânica da casta Ramisco
Casta Tinta · Histórica

Tinta Miúda

De origem desconhecida, a Tinta Miúda existe em países outrora pertencentes ao Império Romano, suspeitando-se de que seja proveniente dessa época. Em Portugal, teve o seu apogeu no século XX, com grande predominância na Região Demarcada dos Vinhos de Lisboa. Talvez por causa da sua maturação tardia, que propicia ataques da podridão cinzenta — à qual é sensível —, tem-se assistido ao seu progressivo abandono.

Apresenta abrolhamento, floração e maturação tardios, originando vindimas serôdias que, em determinadas zonas desta região, representam sempre um risco por causa da chuva. Revela excelente adaptabilidade aos diferentes tipos de solo, mas apresenta dificuldades de maturação em solos demasiado férteis.

Por isso, quando plantada em porta-enxertos de ciclo curto nas terras mais interiores da Região de Lisboa, onde o clima é mais seco e menos húmido, revela todo o seu potencial para a produção de vinho de elevada qualidade e forte coloração, sempre que os rendimentos são moderados e a maturação é completa.

HarmonizaçãoPeixes e carnes temperadas · Lampreia
PerfilForte coloração · Maturação tardia · Vinhos nobres.
Aromas
frutos vermelhosvioletascacau
Aquarela botânica da casta Tinta Miúda
A Rainha das Tintas · 66% dos Produtores

Touriga Nacional

Com origem no norte de Portugal e maior expressão inicial no Dão e no Douro, a Touriga Nacional expandiu-se, nos últimos dez anos, de norte a sul do país, e tem sido uma das castas que integra um maior número de novos encepamentos.

Detentora de uma enorme adaptabilidade a diferentes sistemas de condução — desde que se respeitem os seus hábitos de vegetação e se condicione o vigor —, a Touriga Nacional é hoje considerada por muitos a rainha das castas tintas portuguesas, devido à enorme qualidade e consistência que tem vindo a manifestar nos mais diversos terroirs. As suas características aromáticas muito particulares e expressivas, a sua grande aptidão para estágios longos e a sua "empatia" com madeiras de diferentes origens levaram-na a transpor fronteiras nacionais, sendo hoje encontrada nas mais diversas latitudes, da Austrália aos Estados Unidos e ao Brasil.

Na Região Demarcada dos Vinhos de Lisboa, produz vinhos de enorme caráter, com aromas que fazem "lembrar frutos silvestres vermelhos escuros, quase pretos, muito maduros, com algumas passagens florais de predominância para violeta, mostrando nos bons anos um excelente perfume doce, semelhante ao da esteva" (N. Almeida, 1990/98).

HarmonizaçãoQueijos · Enchidos · Carnes de churrasco · Peixe elaborado
PerfilA rainha das tintas · 66% dos produtores · Da Austrália ao Brasil.
Aromas
groselhavioletaframboesaeucaliptobalsâmico
Aquarela botânica da casta Touriga Nacional

A diversidade dos Vinhos de Lisboa começa logo na vinha, na escolha e no estudo de cada parcela e na seleção criteriosa das melhores castas a plantar. Eleitas as castas, cada produtor, com a sua experiência e o seu cunho pessoal, procura transpor para os seus vinhos o conhecimento secular dos nove terroirs que formam este território vinhateiro. É por isso que, na Região dos Vinhos de Lisboa, a expressão "fruto da videira e do trabalho do homem" assume um significado literal.